Eclipse lunar visto do céu noturno de Jardín América, Misiones, Argentina.Foto: Horacio Cambeiro / Wikimedia Commons, licenciada sob CC BY-SA 4.0
Na madrugada de 25 de março de 2024, moradores de Jardín América, uma cidade de cerca de 40 mil habitantes no interior da província argentina de Misiones, registraram uma das fotografias mais compartilhadas do eclipse lunar penumbral daquele ano — captada em meio à vegetação da região, longe da poluição luminosa das grandes capitais. A imagem circulou em páginas de astronomia de vários países e ajudou a colocar essa cidade, cercada por selva subtropical e cachoeiras, no radar de quem caça esse tipo de fenômeno na América do Sul.
Aquele eclipse específico foi o mais profundo visível nas Américas desde fevereiro de 2017: 95,6% do disco lunar chegou a mergulhar na sombra penumbral da Terra, tornando o fenômeno perceptível a olho nu mesmo sem binóculos — uma raridade entre os eclipses penumbrais, que costumam ser sutis demais para notar sem instrumentos.
Uma cidade pequena com céu privilegiado
Jardín América fica no departamento de San Ignacio, a cerca de 100 km ao norte de Posadas, capital de Misiones, e a poucos quilômetros da margem do rio Paraná. Apesar do nome oficial de “Ciudad Jardín”, a cidade é conhecida localmente por outro atrativo: o Parque Municipal Saltos del Tabay, conjunto de cachoeiras a poucos minutos do centro urbano, cercado por mata nativa que ajuda a manter a região com baixa iluminação artificial nas bordas da cidade — justamente a condição que torna qualquer observação celeste mais nítida.
Diferente de observatórios profissionais ou destinos de astroturismo estruturado, Jardín América não tem infraestrutura voltada especificamente para observação astronômica. O que atrai fotógrafos amadores da região é justamente o oposto: um céu relativamente escuro a uma distância curta de área urbana, cercado pela mata da região das Missões, sem precisar de deslocamentos longos até áreas remotas.
Por que a América do Sul favorece a observação de eclipses lunares
Ao contrário dos eclipses solares, que só são visíveis de uma faixa estreita do planeta, um eclipse lunar pode ser observado de qualquer lugar onde a Lua esteja acima do horizonte no momento do fenômeno — o que inclui, na maioria dos casos, o continente inteiro. Ainda assim, a qualidade da observação muda bastante conforme a região: áreas rurais do interior da Argentina, do Paraguai e do sul do Brasil, como Misiones, se beneficiam de horizontes abertos e menor interferência de luz artificial, ao contrário de capitais como Buenos Aires ou São Paulo.
Diferente de um eclipse solar, o lunar não exige qualquer filtro ou proteção especial para os olhos — pode ser observado diretamente, com ou sem binóculo, durante todo o tempo em que a Lua estiver visível no céu.
O próximo eclipse visível da região
Depois do episódio de 2024, o próximo eclipse lunar visível a partir da América do Sul acontece em 27 e 28 de agosto de 2026: um eclipse parcial profundo, que deve cobrir cerca de 96% do disco lunar na fase de máximo, previsto para as 04h12 UTC (pouco após a meia-noite no horário de Brasília, já na madrugada de 28 de agosto). Depois desse, o próximo evento visível na região será um eclipse penumbral em 20 e 21 de fevereiro de 2027 — mais sutil e difícil de perceber a olho nu do que o eclipse quase total de agosto.
Informações práticas para observar
Onde ficar: áreas afastadas do centro urbano oferecem melhor visibilidade; nas proximidades de Jardín América, a região dos Saltos del Tabay e estradas rurais ao redor da cidade têm menos interferência de luz artificial que o centro.
O que levar: binóculos ou telescópio pequeno ajudam a perceber detalhes na superfície lunar, mas não são obrigatórios — o eclipse é perfeitamente visível a olho nu.
Segurança: diferente de um eclipse solar, não há qualquer risco à visão ao observar um eclipse lunar diretamente, em qualquer fase do fenômeno.
Clima: como em toda observação astronômica, céu limpo é essencial — vale checar a previsão do tempo com um ou dois dias de antecedência e ter um plano B em outro ponto próximo caso nuvens cubram o horizonte principal.
Fotografia: um tripé faz diferença real mesmo para quem usa apenas celular, já que a exposição mais longa necessária durante a fase mais escura do eclipse amplia o risco de imagens tremidas.
Horário: eclipses lunares costumam durar várias horas entre o início e o fim das fases penumbral e parcial — vale chegar ao local de observação com folga antes do horário de início previsto.
Para confirmar horários exatos, fases e visibilidade local de cada eclipse, o portal Time and Date mantém um calendário atualizado de eclipses lunares e solares com previsões para as próximas décadas.
De uma fotografia amadora tirada em uma madrugada de março a um lugar que hoje aparece em buscas de quem planeja onde acompanhar o próximo eclipse, Jardín América é um lembrete de que não é preciso viajar até um deserto famoso ou um observatório profissional para testemunhar esse tipo de fenômeno — às vezes, basta um céu razoavelmente escuro e a paciência de esperar a Lua atravessar a sombra da Terra.
Larissa Belmonte acompanha fenômenos celestes visíveis a partir de cidades e povoados sul-americanos que raramente aparecem em guias de astroturismo tradicionais.




