Huancaya, no Peru: como um vilarejo de 700 moradores virou um dos melhores do mundo para a ONU

Laguna Huallhua, Huancaya, Peru

Laguna de Huallhua, Huancaya, reserva paisagística Nor Yauyos-Cochas, Peru. Foto: Arleth Ñahuinripa Quilca / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

Em novembro de 2024, numa cerimônia em Cartagena das Índias, na Colômbia, a Organização Mundial do Turismo (parte da ONU) anunciou os vencedores do programa Best Tourism Villages — os “Melhores Vilarejos Turísticos do Mundo”. Entre mais de 260 candidaturas de 60 países, cinco vilarejos peruanos entraram na lista. Um deles, Huancaya, fica a pouco mais de 300 km de Lima, tem ruas de pedra a quase 3.600 metros de altitude e nenhuma infraestrutura turística de grande escala — o tipo de lugar que normalmente não aparece em rankings internacionais.

O que pesou na escolha da ONU Turismo

O reconhecimento não avalia apenas paisagem. O programa Best Tourism Villages, criado para incentivar desenvolvimento sustentável em áreas rurais, julga critérios como preservação cultural, gestão ambiental e o quanto o turismo beneficia diretamente a comunidade local — não apenas operadoras externas. Huancaya entrou na lista ao lado de Leymebamba, Maras, Quinua e Sibayo, elevando o Peru a 13 distinções Best Tourism Villages ao todo, atrás apenas da China, que soma 14.

Uma reserva que existia antes do prêmio

Huancaya faz parte da Reserva Paisagística Nor Yauyos-Cochas, na província de Yauyos, região de Lima — uma área protegida que reúne lagunas de água turquesa, cascatas em múltiplos níveis e construções incas remanescentes. O rio Cañete atravessa a reserva formando uma sequência de lagoas represadas naturalmente por depósitos de carbonato de cálcio, o mesmo processo geológico que forma as famosas piscinas de Pamukkale, na Turquia — um detalhe raramente mencionado em guias turísticos do Peru.

O isolamento geográfico, que por décadas limitou o acesso à região, é hoje justamente um dos motivos citados pela ONU Turismo para a escolha: comunidades como Huancaya preservaram práticas agrícolas e handicraft tradicionais precisamente por terem ficado fora do circuito turístico de massa do Peru, concentrado em Cusco e Machu Picchu.

O que muda na prática para quem visita agora

A distinção internacional já vem alterando o perfil de visitantes: operadoras peruanas relatam aumento de reservas para a região desde o anúncio de 2024, o que levanta uma questão que outras comunidades premiadas pela ONU Turismo já enfrentaram antes — como manter o mesmo modelo de turismo comunitário de pequena escala diante de um fluxo maior de visitantes internacionais.

Por enquanto, a oferta de hospedagem em Huancaya segue limitada a pousadas familiares e não a redes hoteleiras, e as atividades — passeio de bote nas lagoas, pesca esportiva, caiaque e caminhadas pelas cascatas — continuam sendo operadas majoritariamente por moradores locais.

Preparando a viagem à reserva

De Lima, chegar a Huancaya exige paciência: a estrada corta o relevo montanhoso da Cordilheira dos Andes por várias horas, sem opção de voo ou trem direto até a região.

A quase 3.600 metros de altitude, vale reservar um dia para aclimatação antes de qualquer atividade física mais intensa.

Por se tratar de um destino ainda pouco desenvolvido para turismo em massa, pousadas familiares seguem sendo a única opção de hospedagem — vale reservar com antecedência, especialmente agora que o reconhecimento da ONU vem atraindo mais visitantes.

A estação seca, entre maio e setembro, oferece céu mais aberto para fotografar as lagoas turquesa; já na estação chuvosa, as cascatas ganham volume, mas o acesso pode complicar.

Entre as atividades disponíveis: passeios de bote e caiaque nas lagoas represadas, pesca esportiva e caminhadas até os mirantes naturais da Reserva Nor Yauyos-Cochas.

Para acompanhar informações atualizadas sobre a reserva e a comunidade, o Serviço Nacional de Áreas Naturais Protegidas do Peru (SERNANP) publica atualizações sobre a Reserva Paisagística Nor Yauyos-Cochas.

Este texto faz parte de uma série de Larissa Belmonte sobre os efeitos, nem sempre positivos, de prêmios e selos internacionais sobre pequenas comunidades sul-americanas.

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