Geoglifo em terra na Fazenda Colorada, Acre, Brasil — vestígio pré-colombiano confundido com trincheira de guerra. Foto: Sanna Saunaluoma / Wikimedia Commons, licenciada sob CC BY-SA 3.0
A partir da década de 1970, o avanço do desmatamento para abertura de pastagens no interior do Acre começou a expor algo que ninguém esperava encontrar sob a floresta amazônica: valas geométricas perfeitas, em forma de círculos e quadrados, entalhadas no solo argiloso. Famílias de fazendeiros que trabalhavam a terra havia gerações passaram a notar essas marcas incomuns em suas propriedades — e, por décadas, a explicação mais aceita localmente era que se tratava de trincheiras remanescentes da Guerra do Acre, o conflito entre Brasil e Bolívia pelo controle da exploração de borracha, travado entre 1899 e 1903.
Só no fim dos anos 1970 uma equipe de arqueólogos revisou essa hipótese. As estruturas eram antigas demais e sofisticadas demais para serem trincheiras militares: tratava-se de obras de terraplenagem construídas por povos pré-colombianos milhares de anos antes da chegada dos europeus às Américas.
O que são exatamente essas marcas
Hoje, mais de 250 desses geoglifos já foram mapeados na porção leste do Acre, além de sítios semelhantes identificados em áreas de Rondônia, do Amazonas e do Peru. Diferente das famosas Linhas de Nazca, que formam desenhos de animais visíveis apenas do alto, os geoglifos amazônicos são valetas profundas — algumas com dez metros de largura — organizadas em formas geométricas que variam de um a seis hectares de área. Pesquisas indicam datações entre 1.000 a.C. e 1.000 d.C., embora alguns sítios, como o da Fazenda Colorada, tenham continuado em uso até por volta do século XIII.
Estudos publicados por pesquisadoras da Universidade de São Paulo e por arqueólogos finlandeses da Universidade de Helsinque sugerem que essas estruturas serviam como espaços cerimoniais, e que os povos que as construíram praticavam manejo florestal — evidência de que a floresta amazônica, mesmo em áreas hoje consideradas “intocadas”, já havia sido moldada pela ação humana muito antes da chegada dos portugueses. Isso contraria diretamente a ideia antiga de que a Amazônia era, até então, natureza selvagem sem ocupação organizada.
Um patrimônio ameaçado pelo próprio processo que o revelou
O paradoxo dos geoglifos do Acre é que o mesmo desmatamento que os trouxe à luz também os coloca em risco constante. A maioria dos sítios está localizada dentro de fazendas de gado ativas, e parte das valetas acaba sendo aterrada para construção de estradas ou aproveitada como reservatório de água para o rebanho, o que compromete a preservação de longo prazo. Órgãos como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) já reconheceram formalmente os Geoglifos do Acre como patrimônio cultural desde 2014, com o conjunto incluído na lista indicativa brasileira para candidatura à Patrimônio Mundial da Unesco.
Para quem se interessa por essa história, vale conferir a ficha técnica oficial do IPHAN sobre os Geoglifos do Acre, que reúne os critérios de reconhecimento e o histórico documental do processo de tombamento.
Como conhecer os geoglifos hoje
Onde estão concentrados
Os sítios mais estudados — Fazenda Colorada, Jacó Sá e Severino Calazans — ficam a poucos quilômetros de Rio Branco, capital do Acre, concentrados principalmente nas margens dos rios Acre e Iquiri. Por estarem dentro de propriedades privadas, o acesso geralmente depende de autorização prévia dos proprietários ou de visitas organizadas por instituições de pesquisa e turismo local.
Como visitar com responsabilidade
Diferente de sítios arqueológicos com infraestrutura turística consolidada, os geoglifos do Acre ainda dependem, em grande parte, de iniciativas locais e de projetos de valorização cultural conduzidos pelo governo do estado. Antes de planejar uma visita, vale contatar a Secretaria de Cultura do Acre ou pesquisadores vinculados a universidades da região, já que muitos sítios não têm sinalização e a entrada em terras particulares exige autorização.
O melhor período para visitar
A estação seca, entre maio e setembro, é a mais indicada: fora desse período, as chuvas intensas da Amazônia dificultam o acesso às estradas rurais que levam às fazendas onde os geoglifos estão localizados, muitas delas não pavimentadas.
Compreender essas marcas exige um pouco de imaginação: onde hoje se vê pasto e gado, existiu — por séculos — uma sociedade organizada o suficiente para desenhar formas geométricas perfeitas na terra, sem as ferramentas que consideramos indispensáveis hoje.
Larissa Belmonte investiga vestígios arqueológicos pouco divulgados da América do Sul, com atenção especial às tensões entre preservação cultural e expansão agrícola na Amazônia.




