Laguna Glaciar, na Bolívia: o lago a 5.038 metros que desafia exploradores no maciço do Illampu

Laguna Glaciar, lago de alta montanha a mais de 5.000 metros de altitude no maciço do Illampu, Bolívia

Laguna Glaciar, lago de alta montanha a mais de 5.000 metros de altitude no maciço do Illampu, Bolívia. Foto: Bjork / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0

Entre os lagos mais elevados já registrados no planeta está a Laguna Glaciar, na província boliviana de Larecaja — considerado o 17º lago mais alto do mundo, segundo levantamentos geográficos. É um espelho d’água de apenas 0,2 km², alimentado diretamente por um glaciar suspenso que desce da montanha, no maciço formado pelos nevados Illampu e Ancohuma, na Cordillera Real.

Os dois gigantes que dão nome ao maciço

Illampu, com 6.485 metros, é o quarto pico mais alto da Bolívia e considerado por montanhistas a rota normal mais difícil entre todas as montanhas de 6.000 metros do país — foi escalado pela primeira vez apenas em 1928, por uma expedição austríaca composta por Hans Pfann, Alfred Horescowsky, Hugo Hortnagel e Erwin Hein. Ancohuma, ligeiramente mais alto (6.427 metros), foi conquistado quase uma década antes, em 1919, por Rudolf Dienst e Adolf Schulze — e apesar da altitude maior, é considerado tecnicamente mais acessível, com relevo menos abrupto que o vizinho.

O nome Ancohuma vem do aimará Janq’u Uma, que significa “água branca” — uma referência direta às geleiras permanentes que cobrem o topo da montanha e que, segundo tradições locais, seriam moradia de diversas divindades andinas.

A alpinista que quase venceu o Illampu 25 anos antes

Antes da primeira ascensão oficial de 1928, uma mulher já havia tentado — duas vezes — conquistar o pico. Em 1903, a alpinista americana Annie Smith Peck, uma das pioneiras do montanhismo feminino e cofundadora do American Alpine Club, organizou uma expedição para escalar o então chamado “Monte Sorata”, acreditando ser o pico mais alto das Américas. Levou consigo um professor de geologia e guias locais — mas o grupo foi forçado a recuar a cerca de 4.700 metros depois que seu companheiro sucumbiu ao mal de altitude.

No ano seguinte, Peck tentou de novo, dessa vez com um alpinista experiente. A expedição carregava algo notável para a época: um aparelho rudimentar para produzir oxigênio suplementar em acampamento — possivelmente a primeira vez que esse tipo de equipamento foi levado a uma grande montanha, segundo um estudo publicado em 2025 na revista High Altitude Medicine & Biology. Mesmo assim, divergências constantes com seu companheiro de expedição sobre qual rota seguir forçaram um novo recuo, dessa vez a cerca de 250 metros do cume.

Frustrada com colegas que, segundo ela própria escreveu, discordavam de cada rota sugerida, Peck acabou abandonando o massif de Sorata e voltou sua atenção para o Huascarán, no Peru, que conquistaria alguns anos depois, já na casa dos 50 anos de idade. O Illampu só seria escalado de fato em 1928, pela expedição austríaca de Hans Pfann — quase um quarto de século depois da primeira tentativa de Peck.

Por que a altitude é o verdadeiro desafio

Diferente de trilhas tecnicamente difíceis por causa do terreno, o trajeto até a Laguna Glaciar é fisicamente exigente sobretudo pela altitude. A rota tradicional começa na vila colonial de Sorata, a cerca de 2.700 metros, e sobe progressivamente até a Laguna Chillata, a 4.213 metros, primeiro ponto de acampamento — antes de seguir para a Laguna Glaciar, a mais de 5.000 metros, onde o ar já contém significativamente menos oxigênio disponível.

Mal aclimatados, muitos visitantes sentem os efeitos do mal de altitude nesse trecho final: dor de cabeça, falta de ar e fadiga acentuada são comuns mesmo em caminhantes fisicamente preparados. Por isso, guias locais recomendam pelo menos dois dias de progressão gradual antes de alcançar o acampamento junto à lagoa, em vez de tentar o trajeto em um único dia a partir de Sorata.

Um ponto de partida para escaladas técnicas

Para alpinistas, a Laguna Glaciar não é o destino final, mas a base de operações para tentativas de cume no Illampu e no Ancohuma. A partir do acampamento base próximo à lagoa, a escalada segue por blocos de granito, morrenas glaciais e, por fim, o próprio gelo, até alcançar um platô glacial a quase 5.800 metros, onde fica o acampamento de altura antes da tentativa final ao cume — um trecho que inclui paredões de gelo com inclinação de até 60 graus, segundo relatos de expedições recentes.

Essa combinação de trekking acessível até a lagoa e rota técnica de escalada logo acima faz da região um raro caso em que iniciantes em altitude e montanhistas experientes compartilham, por um trecho, o mesmo caminho — antes que suas jornadas se separem completamente em nível de dificuldade.

Rota até o Illampu

Sorata fica a cerca de 150 km de La Paz, com acesso por estrada totalmente asfaltada. Há transporte público regular partindo do bairro do Cemitério em La Paz, com viagens saindo a cada 30 minutos através de empresas como Trans Unificada e Trans Perla del Illampu — um trajeto que costuma levar entre três e quatro horas, geralmente compartilhado com moradores aimarás carregando mercadorias para os mercados locais.

Em Sorata, associações locais de guias organizam tanto o trekking até a Laguna Glaciar quanto o transporte em 4×4 e o aluguel de mulas para carregar equipamento até pontos como a Estancia Tusca Jahuira. Contratar um guia local não é apenas recomendável — em trechos de altitude extrema como esse, é praticamente essencial para segurança e orientação.

A janela ideal para a caminhada vai de maio a setembro, período mais estável da Cordillera Real; entre janeiro e março, fortes chuvas tornam trilhas e acessos bem mais arriscados, além de reduzir a visibilidade das montanhas.

Para quem quiser mais informações sobre acesso, guias credenciados e outros atrativos da região, o Governo Autônomo Municipal de Sorata mantém um site oficial de turismo com detalhes atualizados sobre o município.

Larissa Belmonte dá atenção especial aos riscos de altitude que viajantes costumam subestimar em destinos remotos como este.

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