Lago turquesa dorme a 4.873 metros nos Andes peruanos

Laguna Sibinacocha, lago glacial turquesa a 4.873 metros de altitude na Cordilheira de Vilcanota, Peru

Laguna Sibinacocha, no maciço de Ausangate, Peru. Foto: Gvillemin / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0

Uma lagoa que poucos viajantes chegam a ver

No coração da Cordilheira de Vilcanota, no Peru, uma extensão de água turquesa de mais de 15 quilômetros de comprimento permanece praticamente invisível para o turismo convencional. Trata-se da Laguna Sibinacocha, um dos lagos mais altos do planeta, situado a cerca de 4.873 metros acima do nível do mar, na província de Canchis, região de Cusco. Para chegar até lá, não basta um carro: é preciso caminhar por vários dias entre passagens de montanha acima dos 5.000 metros.

Um gigante escondido na Cordilheira de Vilcanota

Sibinacocha ocupa o 22º lugar entre os lagos mais altos do mundo, com cerca de 15 km de comprimento, até 4 km de largura em seu ponto mais amplo e profundidades que chegam a 150 metros. Suas águas nascem do derretimento de geleiras dos picos Chumpe e Condoriquiña, dentro do mesmo maciço que abriga o Quelccaya, a maior calota de gelo tropical do mundo — um dado que por si só justificaria uma visita, ainda que pouquíssimos viajantes cheguem perto dela.

A água que escorre desse gelo alimenta o rio Salcca, afluente do Vilcanota, e segue até desaguar na bacia amazônica. Desde 1996, uma barragem de terra na saída do lago represa parte dessa água para abastecer uma usina hidrelétrica que fornece energia a boa parte da região de Cusco — incluindo, segundo pesquisadores da área, o fornecimento que chega até Machu Picchu.

O que a lama do fundo do lago revela

Em expedições científicas recentes, pesquisadores recuperaram sedimentos do fundo de Sibinacocha contendo um vaso cerâmico pré-inca submerso, usado para reconstruir séculos de mudanças no nível da água do lago. Os dados mostram que uma inundação marcante ocorreu após um período úmido iniciado por volta de 1520 — quase na mesma época da chegada dos espanhóis ao Peru. Esse tipo de registro torna Sibinacocha um verdadeiro arquivo climático da região andina, complementando os núcleos de gelo extraídos do Quelccaya desde a década de 1980.

Fauna que sobrevive no limite do possível

A paisagem ao redor do lago é dominada por bofedais (turfeiras andinas), pastagens de altitude e picos nevados. Vicunhas, alpacas e lhamas pastam nas margens, enquanto huallatas (gansos-andinos) sobrevoam a água. Em condições favoráveis, é possível avistar até flamingos-andinos se alimentando nas águas rasas — uma cena improvável a quase cinco mil metros de altitude. Pesquisadores da região também estudam como sapos e lagartos locais estão se deslocando para altitudes cada vez maiores à medida que as geleiras recuam, um sinal direto do aquecimento na área.

Como chegar

Não existe estrada até a margem de Sibinacocha. O acesso mais comum começa em Cusco, com um trajeto de carro de cerca de três horas até o povoado de Tinki ou Pacchanta, seguido por um trekking de vários dias através do circuito de Ausangate — cruzando pelo menos cinco passagens acima de 5.000 metros antes de alcançar o lago. Uma rota alternativa parte da comunidade de Phinaya, do lado oposto do maciço, geralmente usada como ponto de saída ao final da caminhada.

Antes de ir

A altitude extrema torna a aclimatação obrigatória: recomenda-se passar ao menos três dias em Cusco (3.400 m) antes de iniciar a caminhada. A trilha é considerada difícil, não pela técnica, mas pela combinação de altitude, frio noturno intenso e passagens consecutivas acima de 5.000 metros — não há trekking “fácil” nessa parte dos Andes.

Melhor época

A estação seca, de maio a setembro, oferece céus mais limpos e trilhas menos escorregadias. Entre dezembro e março, as chuvas tornam alguns trechos da rota mais arriscados e reduzem a visibilidade das montanhas ao redor.

Uma área ainda sem proteção oficial

Apesar de sua importância hídrica e climática, a bacia de Sibinacocha e o Quelccaya ainda não possuem status de proteção ambiental permanente. Desde 2008, o governo regional de Cusco discute a criação de uma área de conservação regional para o maciço de Ausangate, que incluiria o lago — uma proposta que, até o momento, segue sem efetivação.

Para quem quiser se aprofundar na pesquisa científica sobre o lago e sua bacia, o artigo publicado na revista Scientific Reports, do grupo Nature, detalha as descobertas arqueológicas e climáticas feitas em suas águas: nature.com — A pre-Inca pot from underwater ruins discovered in an Andean lake.

Este relato faz parte do trabalho contínuo de Larissa Belmonte de documentar lagos e corpos d’água pouco visitados da América do Sul, cruzando fontes científicas e relatos de expedição para ir além do óbvio turístico.

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