Flamingos-andinos na Laguna Colorada, Bolívia. Foto: Luca Galuzzi (www.galuzzi.it), Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.5
O vento é quem pinta a Laguna Colorada: dependendo de como sopra sobre a água, a cor muda de vermelho profundo a laranja queimado — um efeito que rendeu ao lago boliviano o apelido de Espelho Rubi. Fica dentro da Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Avaroa, no departamento de Potosí, a 4.278 metros de altitude, e é surpreendentemente raso: em média, tem entre 35 e 80 centímetros de profundidade, apesar de se estender por cerca de 6 mil hectares.
A ciência por trás da cor vermelha
A cor vermelha vibrante da Laguna Colorada vem da combinação de sedimentos avermelhados com a proliferação de algas pigmentadas adaptadas a ambientes extremamente salinos — principalmente a espécie Dunaliella salina. A intensidade do tom varia bastante: pode ir do rosa suave ao vermelho profundo, dependendo da concentração de algas, da incidência de luz solar e da temperatura da água ao longo do dia. É comum que a cor fique mais intensa perto do entardecer.
Espalhadas pela superfície da lagoa estão pequenas ilhas brancas formadas por depósitos de bórax, que contrastam fortemente com o vermelho da água ao redor — um dos detalhes que mais chama atenção em fotos aéreas do local.
A ave que a ciência dava como extinta
Entre as três espécies de flamingo que convivem nas águas da Laguna Colorada — o flamingo-chileno, o flamingo-andino e o flamingo-de-James — a última carrega a história mais dramática. Por décadas, ornitólogos consideraram o flamingo-de-James oficialmente extinto, até que, em 1956, uma expedição científica encontrou uma colônia reprodutiva viva exatamente aqui, na Laguna Colorada. A descoberta reacendeu décadas de pesquisa sobre a espécie, que hoje é considerada rara e ainda enfrenta ameaças constantes, apesar de a lagoa abrigar uma das maiores colônias reprodutivas do mundo dessa ave.
Curiosamente, os flamingos nascem com penas brancas e acinzentadas. A coloração rosada que os torna tão icônicos vem da alimentação rica em carotenoides — os mesmos pigmentos produzidos pelas algas da própria lagoa. Ou seja: o vermelho da água e o rosa das aves nascem exatamente do mesmo ciclo biológico.
Além dos flamingos, a região abriga raposas-andinas, vicunhas, alpacas e o raro gato-andino, todos adaptados às condições extremas do Altiplano.
Uma reserva criada para proteger três espécies ameaçadas
A Reserva Eduardo Avaroa foi criada em 1973, cobrindo mais de 7.100 km² de altiplano no extremo sudoeste da Bolívia. Em 1990, a Laguna Colorada foi reconhecida como zona úmida de importância internacional pela Convenção de Ramsar, e a área protegida foi posteriormente ampliada para englobar outras lagoas de altitude e bofedales da região. Hoje, a reserva recebe mais de 50 mil visitantes por ano e concentra esforços de conservação em três espécies consideradas globalmente ameaçadas: a vicunha, o flamingo-de-James e a yareta, uma planta andina de crescimento extremamente lento que forma densos coxins verdes sobre as rochas vulcânicas da região.
Roteiro pelo Altiplano
O acesso é feito quase exclusivamente por excursões organizadas de 4×4, que partem de Uyuni (Bolívia) ou de San Pedro de Atacama (Chile), geralmente como parte de roteiros de 2 a 3 dias que incluem também o Salar de Uyuni, a Laguna Verde e o deserto de Siloli. A mais de 4.200 metros, dor de cabeça, cansaço e falta de ar são comuns em quem não está aclimatado — vale programar pausas frequentes, se hidratar constantemente e evitar esforços físicos intensos nas primeiras horas após a chegada.
As noites no Altiplano podem cair para bem abaixo de zero mesmo durante o dia mais quente do ano, e o vento costuma ser intenso — leve roupas em camadas, luvas, protetor solar de alto fator e óculos escuros por causa da radiação em grande altitude. Há uma taxa de acesso à reserva, com valor de referência em torno de 150 bolivianos por pessoa, e as opções de hospedagem dentro da área são rústicas, geralmente incluídas nos pacotes de tour.
A maioria dos roteiros de três dias combina a visita com gêiseres, campos geotérmicos e as termas de Polques — ideais para relaxar depois de um dia inteiro no frio do Altiplano. Para informações oficiais sobre a reserva, o Serviço Nacional de Áreas Protegidas da Bolívia mantém uma página dedicada à Reserva Eduardo Avaroa.
Larissa Belmonte é pesquisadora e curadora de destinos históricos e culturais na América do Sul, com foco em paisagens naturais extremas e pouco documentadas em língua portuguesa.




