Flamingos-andinos na Laguna Colorada, Bolívia. Foto: Luca Galuzzi (www.galuzzi.it), Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.5
A 4.278 metros de altitude, no extremo sudoeste do Altiplano boliviano, a água muda de cor conforme o vento sopra sobre ela — de vermelho profundo a laranja queimado, quase como se o lago respirasse. Chama-se Laguna Colorada, e fica dentro da Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Avaroa, bem perto da fronteira com o Chile.
Onde fica e por que ela existe
A Laguna Colorada está localizada dentro da Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Avaroa, no departamento de Potosí, no extremo sudoeste do Altiplano boliviano, bem próxima da fronteira com o Chile. Fica a uma altitude de aproximadamente 4.278 metros — uma das razões pelas quais a viagem até lá já é, em si, um desafio físico considerável.
É um lago raso e hipersalino: em média tem menos de um metro de profundidade, apesar de se estender por cerca de 6 mil hectares. Em 1990, a lagoa foi reconhecida como zona úmida de importância internacional pela Convenção de Ramsar, e em 2009 a área protegida foi ampliada de pouco mais de 500 km² para mais de 14 mil km², passando a englobar outras lagoas de altitude e bofedales (áreas úmidas andinas) da região.
A ciência por trás da cor vermelha
A cor vermelha vibrante da Laguna Colorada vem da combinação de sedimentos avermelhados com a proliferação de algas pigmentadas adaptadas a ambientes extremamente salinos — principalmente a espécie Dunaliella salina. A intensidade do tom varia bastante: pode ir do rosa suave ao vermelho profundo, dependendo da concentração de algas, da incidência de luz solar e da temperatura da água ao longo do dia. É comum que a cor fique mais intensa perto do entardecer.
Espalhadas pela superfície da lagoa estão pequenas ilhas brancas formadas por depósitos de bórax, que contrastam fortemente com o vermelho da água ao redor — um dos detalhes que mais chama atenção em fotos aéreas do local.
O santuário de flamingos mais alto dos Andes
A Laguna Colorada é um dos principais berços reprodutivos de flamingos da América do Sul. Três espécies convivem nas suas águas: o flamingo-chileno, o flamingo-andino e o raro flamingo-de-James — este último, considerado extinto por décadas, foi redescoberto apenas em 1956 em platôs andinos de altitude.
Curiosamente, os flamingos nascem com penas brancas e acinzentadas. A coloração rosada que os torna tão icônicos vem da alimentação rica em carotenoides — os mesmos pigmentos produzidos pelas algas da própria lagoa. Ou seja: o vermelho da água e o rosa das aves nascem exatamente do mesmo ciclo biológico.
Além dos flamingos, a região abriga raposas-andinas, vicunhas, alpacas e o raro gato-andino, todos adaptados às condições extremas do Altiplano.
Informações práticas para visitar
- Como chegar: o acesso é feito quase exclusivamente por excursões organizadas de 4×4, que partem de Uyuni (Bolívia) ou de San Pedro de Atacama (Chile), geralmente como parte de roteiros de 2 a 3 dias que incluem também o Salar de Uyuni, a Laguna Verde e o deserto de Siloli.
- Altitude e mal de altitude: a mais de 4.200 metros, dor de cabeça, cansaço e falta de ar são comuns em quem não está aclimatado. Vale programar pausas frequentes, se hidratar constantemente e evitar esforços físicos intensos nas primeiras horas após a chegada à altitude.
- Melhor época: a estação seca, entre maio e outubro, oferece céu mais limpo e paisagens mais nítidas. Já a estação chuvosa, de dezembro a abril, costuma trazer uma concentração ainda maior de flamingos.
- Temperatura: as noites no Altiplano podem cair para bem abaixo de zero, mesmo em pleno dia o vento é intenso — leva-se roupas em camadas, luvas, protetor solar de alto fator e óculos escuros por causa da radiação em grande altitude.
- Entrada na reserva: há uma taxa de acesso à Reserva Eduardo Avaroa, com valor de referência em torno de 150 bolivianos por pessoa.
- Hospedagem: as opções dentro da reserva são rústicas, geralmente incluídas nos pacotes de tour — não espere conforto de hotel, mas sim uma experiência de acampamento de altitude.
- O que combinar: a maioria dos roteiros de 3 dias inclui também gêiseres, campos geotérmicos e as termas de Polques, ideais para relaxar depois de um dia inteiro no frio do Altiplano.
Poucos lugares no mundo reúnem, na mesma paisagem, um lago da cor de rubi, ilhas de sal branco, vulcões adormecidos e milhares de flamingos cor-de-rosa caminhando devagar sobre a água — tudo isso a mais de quatro mil metros de altitude, num dos cantos mais remotos dos Andes bolivianos.
Larissa Belmonte é pesquisadora e curadora de destinos históricos e culturais na América do Sul, com foco em paisagens naturais extremas e pouco documentadas em língua portuguesa.




