Vulcões Adormecidos do Equador Impressionam Exploradores Curiosos

Vulcão Cotopaxi ao amanhecer, Equador.

Vulcão Cotopaxi ao amanhecer, Equador. Foto: camilogaleano.com / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

No Equador, uma única estrada permite avistar quase 30 vulcões alinhados dos dois lados da janela do carro — alguns extintos há séculos, outros ainda ativos e monitorados 24 horas por dia. Batizada de Avenida de los Volcanes (Avenida dos Vulcões), essa rota ao longo dos Andes equatorianos reúne, num único corredor, algumas das formações vulcânicas mais espetaculares — e mais estudadas cientificamente — do continente.

O que impressiona não é só a paisagem, mas o fato de exploradores, cientistas e montanhistas seguirem fascinados pela região há mais de dois séculos. A explicação começa com um nome específico: o do naturalista alemão Alexander von Humboldt.

O nome que veio de uma expedição de cinco anos

Foi Humboldt quem batizou a região como “Avenida dos Vulcões”, durante sua expedição pela América do Sul entre 1799 e 1804. O nome nasceu da impressão que o alinhamento quase perfeito das montanhas causou nele, ao atravessar o vale a partir de Quito. Em junho de 1802, acompanhado do botânico Aimé Bonpland, Humboldt tentou escalar o Chimborazo por um terreno traiçoeiro, coberto de neve e cheio de fendas. Ele desistiu perto dos seis mil metros de altitude — mas, mesmo assim, tornou-se a primeira pessoa na história do montanhismo a atingir aquela marca.

A avenida corre por cerca de 300 a 350 km às margens da rodovia Panamericana, ligando cidades como Quito, Latacunga, Ambato e Riobamba. Ao todo, reúne entre 27 e 30 picos vulcânicos visíveis ao longo do trajeto — parte de um sistema muito maior: o Equador tem 53 vulcões conhecidos, dos quais pelo menos 10 permanecem ativos, todos integrando o chamado Cinturão Vulcânico dos Andes, um dos ramos do Círculo de Fogo do Pacífico.

Os protagonistas da avenida

O Cotopaxi, a cerca de 50-60 km de Quito, é considerado um dos vulcões ativos mais altos do mundo, com 5.897 metros. Desde 1976 é monitorado pela primeira estação sismográfica permanente instalada na América do Sul para vigiar uma formação vulcânica. Já foi escalado por nomes como Alexander von Humboldt, Charles Darwin e até o Papa João Paulo II.

O Chimborazo, a cerca de 150 km de Quito, é o ponto mais alto do Equador — com 6.263 a 6.310 metros, dependendo da fonte consultada — e, por uma curiosidade geográfica pouco conhecida, é o ponto da superfície terrestre mais distante do centro da Terra, devido ao abaulamento do planeta na linha do Equador.

Outro protagonista é o Tungurahua, apelidado de “Garganta de Fogo”, em erupção praticamente contínua desde 1999. Localizado dentro do Parque Nacional Sangay — Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1983 —, o vulcão já lançou cinzas que chegaram a cidades a quase 280 km de distância, como Guayaquil.

Já o Quilotoa, embora tenha apenas cerca de 3.900 metros — considerado baixo para os padrões da região —, esconde no topo uma cratera com um lago de cerca de três quilômetros de diâmetro, de um azul intenso causado pela alta concentração de minerais na água. O vulcão não emite gases desde 1280, mas ainda é classificado como ativo.

Há também uma lenda andina bastante repetida entre guias locais: a de uma disputa entre o Chimborazo e o Cotopaxi pelo amor da vulcã Tungurahua — um mito que ilustra bem como essas montanhas fazem parte não só da geologia, mas também da cultura oral da região.

Roteiro pela Avenida dos Vulcões

A maioria dos roteiros começa em Quito, de onde saem tanto ônibus intermunicipais — do Terminal Terrestre de Quitumbe — quanto tours guiados de um dia. O Parque Nacional Cotopaxi fica a cerca de 1h30 de carro de Quito, com trilhas de diferentes níveis até os arredores do vulcão, embora a subida ao cume exija guia experiente e preparo físico e técnico. Já o Chimborazo permite acesso a pontos intermediários para caminhantes, mas o cume é reservado a montanhistas com experiência prévia em escalada em altitude.

Para quem prefere um ritmo mais tranquilo, o Trem dos Vulcões — o “Tren de los Volcanes” — passa por trechos com vista para cerca de 14 vulcões, incluindo Cotopaxi e Rumiñahui, em direção a Machachi e à Área Recreacional de El Boliche. A estação seca, entre junho e setembro, costuma oferecer céu mais aberto para fotografar os picos, embora nuvens possam encobrir os cumes a qualquer momento. Boa parte do roteiro passa dos 3.000-4.000 metros, por isso vale se aclimatar em Quito por ao menos um dia antes de seguir viagem. O Parque Nacional Cotopaxi também abriga lhamas, vicunhas, guanacos e até cavalos selvagens, tornando o passeio interessante mesmo para quem não pretende subir nenhum vulcão.

Mais de dois séculos depois de Humboldt, a Avenida dos Vulcões segue rendendo material de pesquisa para Larissa Belmonte.

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