Savana do Beni, Bolívia, região que abriga as Pampas do Yacuma. Foto: Sam Beebe / Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0
Uma canoa desliza devagar pelas águas do rio Yacuma, e basta minutos para que um jacaré emerja a poucos metros, seguido por uma família de capivaras na margem oposta. No coração da Amazônia boliviana, essa savana alagada oferece algo raro: observar a vida selvagem em liberdade total, sem cerca, sem cativeiro, sem esforço.
Essa savana costuma aparecer apenas como “opção B” nos roteiros da Amazônia boliviana, atrás da selva densa — mas muitos viajantes descrevem a experiência de observação de vida selvagem aqui como ainda mais direta e intensa do que na floresta fechada, justamente por causa da paisagem aberta.
Uma savana que se transforma com as cheias
As Pampas del Yacuma ficam no departamento de Beni, próximas ao município de Santa Rosa del Yacuma, a cerca de três horas de estrada da cidade de Rurrenabaque — a porta de entrada mais conhecida para o turismo na Amazônia boliviana. A área foi declarada Área Protegida Municipal em 8 de julho de 2007, através de uma ordenança municipal, e abrange mais de 616 mil hectares — uma das maiores áreas protegidas municipais do mundo, segundo especialistas da região.
A paisagem é definida pelo regime de cheias sazonais do rio Yacuma: parte do ano, a savana permanece alagada, formando um mosaico complexo de lagoas, campos inundados, ilhas de floresta, palmeiras e vegetação aquática. Essa dinâmica de inundação anual é justamente o que sustenta a riqueza de espécies da região — e também o que torna a paisagem tão diferente, em cada estação, de quem visita mais de uma vez.
Fauna à vista, sem esforço
O que diferencia as Pampas del Yacuma da experiência tradicional de selva densa é a facilidade de observação. Enquanto no Parque Nacional Madidi os animais costumam estar escondidos entre a vegetação fechada, aqui a paisagem aberta de savana alagada faz com que a fauna se concentre nas margens do rio e das lagoas — tornando os avistamentos praticamente garantidos.
Passeios de bote pelo rio Yacuma permitem observar botos-cor-de-rosa (uma espécie de golfinho de água doce típica da Amazônia), jacarés, capivaras, tartarugas, macacos e mais de 200 espécies de aves catalogadas na região. É também um dos poucos lugares onde guias locais organizam buscas guiadas por sucuris nos campos alagados — uma caminhada considerada desafiadora, feita com botas de borracha por terrenos pantanosos.
Comunidades locais e ecoturismo sustentável
Dentro da área protegida vivem cerca de sete mil pessoas, distribuídas em nove comunidades — Mojón, San Cristóbal, San Bartolomé, Picaflores, Villa Fátima, Awaizal, El Triunfo, El Rosario e El Candado —, além de mais de 170 propriedades de criação de gado. Segundo a Wildlife Conservation Society (WCS), um dos principais objetivos da área protegida é justamente conciliar a conservação da biodiversidade com o desenvolvimento sustentável da população local, sendo o ecoturismo hoje uma das principais atividades econômicas do município de Santa Rosa.
Informações práticas para visitar
- Como chegar: a maioria dos visitantes parte de La Paz até Rurrenabaque, de avião (cerca de 40-45 minutos) ou ônibus (viagem bem mais longa). De Rurrenabaque, o trajeto até Santa Rosa del Yacuma leva cerca de três horas por estrada na época seca.
- Chegada às pampas: de Santa Rosa, o acesso aos alojamentos dentro da área é feito de barco, navegando pelo rio Yacuma até os albergues flutuantes ou construídos sobre palafitas.
- Duração recomendada: a maioria dos passeios guiados dura de dois a três dias, incluindo hospedagem simples em ecolodges à beira do rio.
- Entrada: há uma taxa de acesso à área protegida, com valor de referência em torno de 150 bolivianos para estrangeiros.
- O que levar: roupas leves e de secagem rápida, botas de borracha (para as caminhadas em terreno alagado), repelente de insetos, protetor solar e chapéu.
- Melhor época: a estação seca facilita o acesso por estrada, enquanto a estação chuvosa amplia as áreas alagadas e pode intensificar a presença de certas espécies próximas ao rio.
- Combine com: muitos viajantes combinam as Pampas del Yacuma com uma visita ao Parque Nacional Madidi, já que ambos partem do mesmo ponto de acesso em Rurrenabaque — juntos, formam um dos circuitos mais completos da Amazônia boliviana.
- Recomendação de segurança: por se tratar de terreno selvagem com fauna potencialmente perigosa (jacarés, sucuris), a visita sem guia local especializado não é recomendada.
Poucos lugares na Amazônia sul-americana permitem uma imersão tão direta na vida selvagem quanto as Pampas del Yacuma — um lembrete de que, às vezes, a savana alagada revela mais da natureza do que a própria floresta densa que a cerca.
Larissa Belmonte é pesquisadora e curadora de destinos históricos e culturais na América do Sul, com foco em ecossistemas selvagens e comunidades tradicionais pouco divulgadas em língua portuguesa.




