Foto ilustrativa: aurora austral vista da Estação Espacial Internacional (não fotografada em Ushuaia). Foto: NASA/Johnson Space Center (domínio público)
Na noite de 10 para 11 de maio de 2024, moradores de Ushuaia, a cidade mais austral do planeta, saíram às ruas para presenciar algo que a maioria nunca tinha visto: o céu tingido de rosa e vermelho profundo por uma aurora austral. O fenômeno, raro nessas latitudes mesmo estando tão ao sul, foi resultado de uma tempestade geomagnética classificada como G5 — a categoria mais extrema da escala da NOAA — considerada a mais intensa registrada desde 2003.
A tempestade teve origem em uma sequência de erupções solares e ejeções de massa coronal partidas do Sol nos dias anteriores, que colidiram com o campo magnético da Terra e produziram auroras visíveis muito além das regiões polares habituais. Na Argentina, o fenômeno não ficou restrito a Ushuaia: também foi registrado nas bases antárticas Marambio e Orcadas, e — em um alcance ainda mais surpreendente — chegou a ser fotografado tão ao norte quanto Pinamar e Chascomús, na costa atlântica bonaerense.
Por que Ushuaia, mesmo no extremo sul, raramente vê auroras
Apesar de sua localização privilegiada, próxima ao Círculo Polar Antártico, Ushuaia não fica exatamente dentro da faixa onde auroras australes ocorrem com regularidade — essa faixa costuma estar concentrada bem mais ao sul, sobre o continente antártico e o oceano que o circunda. Para que o fenômeno se torne visível em latitudes como a da Tierra del Fuego, é necessária uma tempestade geomagnética de intensidade excepcional, capaz de expandir temporariamente o chamado ovário auroral para muito além de seus limites usuais.
Foi exatamente isso que aconteceu em maio de 2024: o índice planetário Kp, que mede a intensidade da atividade geomagnética, chegou a atingir valores entre 8 e 9 — próximo do máximo da escala —, mantendo-se nesse patamar por quase 24 horas contínuas, o que permitiu que a aurora fosse visível mesmo a olho nu por horas seguidas.
Um registro sem precedentes na base Orcadas
Um detalhe pouco divulgado do episódio chamou atenção de cientistas: segundo o Servicio Meteorológico Nacional da Argentina, foi a primeira vez que uma aurora foi registrada na base Orcadas, no arquipélago das Órcadas do Sul — fenômeno historicamente mais comum na base Belgrano II, localizada consideravelmente mais ao sul. Esse tipo de registro inédito reforça o caráter excepcional da tempestade solar de maio de 2024, comparável em intensidade a eventos que não se repetiam havia mais de duas décadas.
Informações práticas
Quando há chance de ver uma aurora em Ushuaia
Não existe temporada fixa: o fenômeno depende exclusivamente da intensidade da atividade solar, que segue um ciclo de aproximadamente 11 anos. Como o Sol está atualmente próximo do pico desse ciclo, a chance de novas tempestades geomagnéticas fortes o suficiente para gerar auroras visíveis em latitudes como a de Ushuaia é maior nos próximos anos do que era há uma década.
Como se preparar para tentar avistar o fenômeno
Como as auroras australes em Ushuaia dependem de eventos imprevisíveis, a melhor estratégia é acompanhar alertas de tempestade geomagnética emitidos por serviços meteorológicos e centros de previsão espacial, que costumam avisar com algumas horas ou, no máximo, poucos dias de antecedência. Céu limpo, pouca poluição luminosa e paciência para esperar até tarde da noite são essenciais — a maior parte dos registros de maio de 2024 aconteceu depois das 20h, horário local.
Onde na cidade observar
Moradores relataram boa visibilidade tanto no centro de Ushuaia quanto em pontos mais afastados da orla, com vista aberta para o sul. Como o fenômeno pode variar em intensidade ao longo da noite, vale alternar entre diferentes pontos da cidade caso o céu esteja parcialmente encoberto por nuvens em algum deles.
Para acompanhar alertas oficiais de atividade geomagnética que possam indicar novas chances de aurora austral na região, o Servicio Meteorológico Nacional da Argentina publica atualizações regulares sobre fenômenos atmosféricos e espaciais no país.
Larissa Belmonte acompanha fenômenos naturais raros na América do Sul, com atenção especial a eventos que dependem de condições astronômicas imprevisíveis.




