Parque Nacional Torotoro: a Rodovia Secreta dos Dinossauros na Bolívia

Pegadas fossilizadas de dinossauro terópode em Torotoro, Bolívia

Pegadas de dinossauro terópode no sítio Carreras Pampa, Parque Nacional Torotoro, Bolívia. Fonte: Esperante et al. (2025), PLOS ONE, CC BY 4.0

No fim de 2025, uma equipe internacional publicou na revista científica PLOS One uma descoberta que colocou a Bolívia no mapa da paleontologia mundial: o Parque Nacional Torotoro, no centro do país, abriga hoje o maior sítio de pegadas de dinossauros já documentado no planeta — rastros de animais que desapareceram há 66 milhões de anos, ainda visíveis a céu aberto.

Chama atenção que um recorde científico dessa magnitude ainda apareça tão pouco nos guias de viagem tradicionais. A explicação é bem prática: Torotoro fica isolado, o acesso é difícil, e boa parte da descoberta publicada em 2025 ainda está sendo processada e divulgada pela comunidade científica — a fama global ainda não alcançou o destino em si.

A “rodovia pré-histórica” de Carreras Pampa

A área central da descoberta se chama Carreras Pampa, dentro dos limites do parque. Uma equipe internacional liderada pelo paleontólogo Raúl Esperante, do Geoscience Research Institute (EUA), em colaboração com pesquisadores bolivianos, passou seis anos mapeando o local antes de publicar os resultados. Ao todo, foram catalogadas 16.600 pegadas fossilizadas — a maioria pertencente a dinossauros terópodes, o grupo bípede e carnívoro que inclui os ancestrais diretos das aves modernas.

Os pesquisadores identificaram 1.321 trilhas contínuas de passadas, além de centenas de marcas isoladas e, de forma ainda mais rara, registros de arrasto de cauda e de natação — sinais de que alguns desses animais nadavam sobre um antigo lago raso de água doce que existia ali há cerca de 66 milhões de anos, no fim do período Cretáceo. A orientação consistente das trilhas, sempre em duas direções principais ao longo da antiga margem do lago, levou a equipe a apelidar o local de “rodovia pré-histórica” — uma rota que diferentes espécies percorriam repetidamente em busca de água.

Um detalhe intrigante: apesar da quantidade impressionante de pegadas, quase nenhum osso de dinossauro foi encontrado na região. Segundo os cientistas, isso acontece porque as condições do solo — lama úmida e rica em carbonatos, que depois endureceu — favoreceram a preservação das marcas na superfície, mas não a fossilização dos corpos. É um daqueles casos em que o registro fóssil guarda o comportamento dos animais com mais fidelidade do que guarda os próprios animais.

O achado supera o antigo recorde mundial, que pertencia à parede fossilífera de Cal Orcko, em Sucre (Bolívia), com cerca de 14 mil marcas. Ou seja: a própria Bolívia detinha o recorde anterior e agora bateu o próprio recorde.

As pegadas encontradas no sítio Carreras Pampa, dentro do Parque Nacional Torotoro, não são apenas uma atração turística — elas fazem parte de um registro fóssil documentado cientificamente. Um estudo publicado em 2025 na revista PLOS ONE, conduzido pelo paleontólogo Raúl Esperante e sua equipe, descreve em detalhe as pegadas de dinossauros terópodes encontradas na região, incluindo marcas de cauda preservadas na rocha do período Cretáceo Superior. A pesquisa completa, com fotografias e análises detalhadas do sítio, está disponível gratuitamente para consulta.

Um parque que também é canyon, caverna e cachoeira

Mas Torotoro não é só sobre dinossauros. O parque fica na região de Potosí, a cerca de 140 km de Cochabamba, cidade de onde parte a maioria dos visitantes. O acesso é feito por estradas de terra que cortam uma paisagem árida e montanhosa — a viagem em si já entrega o clima de “cenário perdido no tempo” que o lugar promete.

O Cânion de Torotoro é outra atração central: um abismo com mais de 300 metros de profundidade. Para quem topa a descida, a recompensa é a Cascata El Vergel, uma queda d’água cercada de vegetação, com poços naturais para um mergulho depois da caminhada. O parque também tem cavernas com formações de estalactites, resultado de milhões de anos de sedimentação marinha seguida de soerguimento tectônico e erosão — a mesma história geológica que, em outra escala de tempo, preservou as pegadas de dinossauro.

Informações práticas para visitar

  • Como chegar: o trajeto mais comum parte de Cochabamba, com cerca de 5 horas por estrada de terra. Recomenda-se contratar um tour organizado ou alugar um veículo 4×4.
  • Guia obrigatório: a entrada no parque exige acompanhamento de guias credenciados — não é possível visitar as áreas de pegadas ou o cânion por conta própria.
  • Melhor época: a estação seca, entre abril e outubro, é a mais indicada, já que as trilhas ficam mais acessíveis e as cavernas mais seguras para visitação.
  • O que levar: roupas confortáveis, calçado apropriado para trekking, protetor solar, chapéu e bastante água — o calor e a caminhada exigem preparo físico básico.
  • Onde ficar: o pequeno povoado de Torotoro, dentro da área do parque, oferece hospedagens simples e é o ponto de partida para a maioria dos passeios guiados.
  • Combine com: conversas com moradores locais sobre lendas da região e pratos típicos bolivianos costumam fazer parte da experiência dos tours mais completos.

Diferente do Salar de Uyuni ou do Lago Titicaca, Torotoro segue sendo um destino de nicho — o que, para quem gosta de viajar fora do roteiro óbvio, é exatamente o atrativo. Poucos lugares no mundo permitem caminhar sobre uma rota que os dinossauros percorreram de verdade, sabendo que a ciência ainda está processando o que essas pegadas têm a revelar.

Larissa Belmonte é pesquisadora e curadora de destinos históricos e culturais na América do Sul, com foco em sítios geológicos e paleontológicos pouco divulgados em língua portuguesa.

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