Um desfiladeiro andino guarda inscrições sem autoria conhecida

Petróglifo antigo esculpido em rocha vulcânica no desfiladeiro de Cumbe Mayo, Cajamarca, Peru

Petróglifo em Cumbe Mayo, Cajamarca. Foto: AgainErick / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0

Um canal de pedra perfeitamente talhado serpenteia por quilômetros entre formações vulcânicas que parecem monges em procissão silenciosa — e ao longo de suas paredes, símbolos antropomórficos gravados há milênios ainda desafiam qualquer tentativa de decifração completa. O lugar se chama Cumbe Mayo, nas terras altas de Cajamarca, no norte do Peru, e reúne engenharia hidráulica pré-inca, arte rupestre e um mistério que a arqueologia ainda não resolveu por completo.

Curiosamente, esse sítio costuma ser ofuscado por destinos mais famosos do Peru, apesar de reunir, no mesmo lugar, uma das obras de engenharia hidráulica mais sofisticadas da América pré-colombiana e petróglifos cuja autoria exata segue sendo debate acadêmico.

Um canal que desafia a lógica da irrigação

O nome Cumbe Mayo vem do quéchua kunpi mayu, que pode ser traduzido como “o canal bem feito”, ou de hunpi mayo, “rio delgado”. Trata-se de um canal pré-inca com cerca de nove quilômetros de extensão, esculpido diretamente na rocha vulcânica com ângulos de 90 graus perfeitamente talhados — um nível de precisão que intriga engenheiros até hoje.

O que torna a estrutura ainda mais curiosa é que a região de Cajamarca recebe chuva suficiente para sustentar a agricultura local sem necessidade de um sistema hidráulico tão elaborado. Os canais são muito mais longos do que precisariam ser, cheios de desvios e desenhos geométricos que não servem a nenhum propósito puramente funcional — o que levou pesquisadores a proporem que a obra teria, além da função de irrigação, um propósito cerimonial ligado ao culto da água, de forma semelhante ao sítio de Quenko, no Cusco.

Petróglifos que ainda não foram decifrados

Ao longo do canal e dentro de cavernas próximas, aparecem petróglifos com motivos antropomórficos — figuras que lembram formas humanas estilizadas — esculpidos na rocha. Até hoje, essas imagens não foram completamente decifradas pelos pesquisadores. Uma das cavernas do complexo, conhecida como “a grota”, tem suas paredes inteiras cobertas por esses símbolos misteriosos, enquanto outro ponto do sítio recebe o nome de “o santuário”: um afloramento rochoso modelado em formato de cabeça humana.

Estudiosos identificam nos petróglifos uma influência da cultura Chavín, uma das civilizações mais antigas e enigmáticas dos Andes centrais, o que ajudaria a datar parte das gravuras entre 1500 e 100 a.C. — tornando alguns desses símbolos ainda mais antigos que o próprio canal esculpido na rocha.

A floresta de pedra que emoldura o sítio

Cumbe Mayo também é conhecido por um fenômeno geológico chamado Los Frailones — “os frades”, em referência às silhuetas que os pilares vulcânicos formam à distância, moldados ao longo de milênios pela erosão do vento e da chuva. Alguns desses pilares chegam a 18 metros de altura, criando um contraste marcante com as planícies gramadas e suavemente onduladas que cercam a cidade de Cajamarca.

Segundo o Governo Regional de Cajamarca, estudos indicam que as primeiras evidências de presença humana na região datam de cerca de 10.500 anos atrás — o que reforça a hipótese de que Cumbe Mayo tenha sido ocupado e ressignificado por diferentes culturas ao longo de um período extremamente longo, cada uma deixando ali suas próprias marcas na pedra.

Antes de conhecer o desfiladeiro

O acesso a Cumbe Mayo parte da cidade de Cajamarca, a cerca de 20-22 km de distância, numa região de altitude que ultrapassa os 3.400 metros — vale se aclimatar previamente na cidade antes de subir até o sítio. O transporte público até o local costuma ser limitado a poucos horários diários, geralmente pela manhã, o que leva muitos visitantes a preferirem passeios guiados organizados a partir de Cajamarca, que costumam incluir também o mirador de Bellavista e as ruínas pré-incas de Layzón no mesmo roteiro.

Vale reservar ao menos meia manhã inteira para caminhar com calma entre o canal, a floresta de pedra e as cavernas com petróglifos — pressa é exatamente o que este lugar não pede. Segundo o Governo Regional de Cajamarca, projetos de conservação seguem em andamento no sítio, incluindo limpeza de líquens e musgos sobre os petróglifos e restauração de trechos do canal — um lembrete de que essa é uma herança ainda ativa, e não apenas ruínas congeladas no tempo.

Poucos lugares no Peru reúnem, lado a lado, uma obra hidráulica tão precisa quanto enigmática e símbolos gravados que continuam resistindo a qualquer interpretação definitiva — um desfiladeiro andino que guarda, literalmente na pedra, perguntas que a arqueologia ainda não conseguiu responder por completo.

Larissa Belmonte dedica parte de sua pesquisa a documentar sítios arqueológicos de autoria incerta espalhados pelos Andes, ainda pouco explorados pelo público de língua portuguesa.

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