Illakata, no altiplano andino: o círculo de pedras que intriga moradores há gerações

Geoglifo em espiral nas Linhas de Nazca, Peru

Foto ilustrativa: geóglifo em espiral, um dos famosos desenhos das Linhas de Nazca — o mistério que a descoberta de Illakata ajudou a reinterpretar (imagem não retrata o círculo de pedras de Illakata em si) Foto: Codas / Wikimedia Commons, licenciada sob CC BY-SA 4.0

Documentado pela primeira vez em 1986, o círculo cerimonial de pedras do Illakata fica a mais de 4.200 metros de altitude, no topo de uma das montanhas que alimentam o sistema de drenagem do deserto de Nazca. Sua descoberta, relativamente recente, ajudou a mudar por completo a forma como se interpreta um dos maiores enigmas arqueológicos da América do Sul: as famosas Linhas de Nazca.

Curiosamente, esse sítio raramente é mencionado nos roteiros turísticos da região, apesar de ter sido peça-chave para uma das teorias mais aceitas atualmente sobre o propósito dos geoglifos no deserto peruano.

A descoberta que mudou uma teoria

O círculo de pedras no Illakata foi documentado em 1986 pelo antropólogo e explorador Johan Reinhard, especialista em arqueologia de alta montanha. Ele já era conhecido por identificar santuários cerimoniais em picos andinos ao redor do mundo, ligados ao culto das chamadas “montanhas-deuses” (apus, na tradição andina).

No topo do Illakata, Reinhard encontrou as ruínas de uma estrutura circular de pedras — um círculo cerimonial que, segundo sua hipótese, teria função ritual ligada à água. A montanha está entre as mais altas responsáveis por alimentar os rios que descem em direção ao deserto de Nazca, uma das regiões mais áridas do planeta, onde praticamente todos os rios secam ao menos parte do ano.

A conexão com as Linhas de Nazca

A descoberta ganhou peso científico porque reforçou uma teoria específica sobre as Linhas de Nazca: a de que os enormes geoglifos gravados no solo desértico não eram apenas símbolos astronômicos ou calendários, como se pensava anteriormente, mas parte de um sistema de rituais ligados à adoração das montanhas e à busca por água — um recurso escasso e vital para os antigos povos da região.

Segundo relatos publicados pela National Geographic, arqueólogos que sobrevoavam a região identificaram, junto às linhas retas e trapezoides característicos de Nazca, pequenos montes de pedra dispostos em pontos estratégicos — possivelmente marcadores rituais relacionados a essa mesma lógica de culto às montanhas e cursos d’água. O círculo cerimonial do Illakata seria, nessa interpretação, um dos pontos mais altos e simbólicos dessa rede de rituais.

O que se sabe — e o que ainda intriga pesquisadores

Apesar da datação aproximada e da localização precisa serem conhecidas, o significado completo do círculo de pedras do Illakata segue em debate acadêmico. Perguntas centrais permanecem sem resposta definitiva: quem exatamente construiu a estrutura, com que frequência era usada, e se sua função era exclusivamente ritual ou também servia como ponto de observação astronômica ou meteorológica, dada sua altitude privilegiada.

Moradores das comunidades andinas próximas à região mantêm, até hoje, tradições de respeito e oferendas às montanhas mais altas — uma prática conhecida como pago a la tierra ou culto aos apus, que atravessa gerações e ecoa diretamente a lógica que teria motivado a construção do círculo cerimonial séculos atrás.

Informações práticas para quem quer explorar a região

  • Localização: o Illakata fica na região altiplânica que alimenta o sistema de drenagem do deserto de Nazca, no sul do Peru, uma área de acesso remoto e altitude elevada.
  • Acesso: não existe infraestrutura turística formal para visitar o círculo de pedras em si — a maioria dos visitantes conhece a região através de sobrevoos sobre as Linhas de Nazca, que partem da cidade de Nazca ou de Ica.
  • Melhor forma de entender o contexto: o Museu Maria Reiche, próximo à cidade de Nazca, e o Museu Antonini, em Nazca, reúnem informações sobre as teorias arqueológicas ligadas tanto aos geoglifos quanto aos santuários de montanha da região.
  • Altitude: para quem pretende se aventurar pela puna andina que circunda a região, vale lembrar que se trata de altitudes acima de 4.000 metros, exigindo aclimatação prévia.
  • Respeito cultural: comunidades locais ainda praticam rituais de oferenda às montanhas; caso encontre vestígios desse tipo durante uma caminhada na região, o recomendável é observar à distância, sem tocar ou remover objetos.
  • Leitura complementar: para quem se interessa pela teoria da adoração das montanhas ligada às Linhas de Nazca, vale consultar a reportagem publicada pela National Geographic sobre o tema, que detalha a descoberta de Reinhard e seu impacto nas pesquisas posteriores.

Poucos lugares combinam, de forma tão direta, arqueologia de alta montanha, mistério ritual e uma das maiores charadas visuais já registradas no planeta — e o círculo de pedras do Illakata segue sendo, décadas depois de sua descoberta, uma peça-chave que ainda não foi completamente decifrada.

Larissa Belmonte é pesquisadora e curadora de destinos históricos e culturais na América do Sul, com foco em sítios arqueológicos de altitude pouco divulgados em língua portuguesa.

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