Cueva de las Manos, na Patagônia argentina: milhares de mãos gravadas há quase 10 mil anos

Silhuetas de mãos pintadas há milhares de anos na Cueva de las Manos, Santa Cruz, Patagônia argentina

Silhuetas de mãos pintadas há milhares de anos na Cueva de las Manos, Santa Cruz, Patagônia argentina. Foto: Mariano / Wikimedia Commons, licenciada sob CC BY-SA 2.5

Centenas de silhuetas de mãos humanas cobrem um paredão de rocha na Patagônia argentina — sopradas com pigmento contra a pedra há milênios, ao lado de cenas de caça retratando guanacos perseguidos por caçadores. O local fica dentro de um cânion escavado pelo Rio Pinturas, na província de Santa Cruz, e é conhecido como Cueva de las Manos, reconhecida pela Unesco como Patrimônio Mundial desde 1999.

As pinturas mais antigas do local têm entre 9.000 e 13.000 anos, feitas por grupos de caçadores-coletores que precedem em milênios qualquer civilização andina conhecida. E, apesar de décadas de pesquisa arqueológica, o propósito exato dessas centenas de mãos gravadas na pedra continua sendo objeto de debate entre especialistas.

Uma técnica simples, um significado ainda incerto

A técnica usada para criar as imagens era relativamente direta: os autores pressionavam a mão contra a rocha e sopravam pigmento — geralmente óxido de ferro, produzindo tons de vermelho, laranja e roxo — através de um tubo oco, criando um contorno negativo da mão na parede. A esmagadora maioria das mãos identificadas pertence à mão esquerda, um detalhe que intriga pesquisadores até hoje: seria isso resultado de destros segurando o tubo de sopro com a mão dominante, ou algum tipo de convenção cultural deliberada?

Arqueólogos como Carlos Aschero, que dedicou décadas ao estudo do sítio, documentaram múltiplas camadas de pintura sobrepostas ao longo de milênios, sugerindo que o local foi usado repetidamente por diferentes gerações — possivelmente como marco territorial, espaço ritual de passagem, ou registro simbólico de identidade coletiva. Nenhuma dessas hipóteses, porém, foi confirmada de forma definitiva, e é justamente essa ausência de resposta única que mantém o sítio como um verdadeiro enigma da arqueologia sul-americana.

Cenas de caça que também intrigam

Além das mãos, o painel conhecido como “Paredón de las Escenas” retrata cenas detalhadas de caça a guanacos, incluindo o que parece ser uma técnica de cerco em manada — indicando conhecimento estratégico sofisticado sobre o comportamento desses animais muito antes do desenvolvimento de tecnologias agrícolas na região. A combinação de mãos e cenas de caça levanta ainda outra questão em aberto: as duas categorias de imagem foram feitas pelas mesmas pessoas, na mesma época, ou representam tradições distintas sobrepostas ao longo dos séculos?

Informações práticas

Como chegar

O sítio fica a cerca de 163 km ao sul da cidade de Perito Moreno, dentro dos limites do Parque Provincial Cueva de las Manos. Existem três estradas de acesso, todas de ripio (cascalho): uma rota de 46 km partindo do sul, próxima a Bajo Caracoles, e duas rotas a partir da Ruta 40 ao norte — uma delas com 22 km de estrada seguidos de uma trilha a pé de cerca de 4 km.

A trilha alternativa pelo cânion

Para quem busca uma experiência mais imersiva, existe uma trilha de aproximadamente uma hora e meia que desce até o cânion do Rio Pinturas a partir da margem oposta ao sítio, com vistas panorâmicas do desfiladeiro. O trajeto é íngreme, mas conta com passarela metálica para atravessar o rio e melhorias recentes que tornam a descida mais segura.

Visita guiada obrigatória

O acesso às pinturas só é permitido acompanhado de guias autorizados, uma medida de proteção do patrimônio arqueológico. Há um centro de interpretação na entrada do parque, essencial para contextualizar o que se sabe — e o que ainda não se sabe — sobre os autores das pinturas.

Para quem quiser se aprofundar na documentação oficial do reconhecimento internacional do sítio, a Unesco mantém uma página dedicada à Cueva de las Manos como Patrimônio Mundial.


Larissa Belmonte investiga sítios arqueológicos sul-americanos cujas origens e significados permanecem parcialmente sem explicação científica definitiva.

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