Laguna de Guatavita: o lago colombiano onde nasceu o mito de El Dorado

Laguna de Guatavita, lago sagrado dos muiscas na Colômbia, origem da lenda de El Dorado

Laguna de Guatavita, Cundinamarca, Colômbia — o lago circular na origem da lenda de El Dorado. Foto: Burkhard Muecke / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

A cerca de duas horas de Bogotá, um lago perfeitamente circular ocupa o fundo de uma cratera nos Andes colombianos. Por décadas, viajantes especularam que se tratava de uma cratera vulcânica ou até de impacto de meteorito — geólogos hoje confirmam que Guatavita se formou por um processo mais discreto, o colapso gradual do solo sobre uma bolsa subterrânea de água (um sinkhole). Nada nisso, porém, explica por que impérios inteiros passaram séculos tentando esvaziá-lo.

Um ritual, não um tesouro perdido

Para o povo muisca, que habitava o altiplano de Cundinamarca antes da chegada espanhola, Guatavita era um lago sagrado — palco de um ritual de investidura toda vez que um novo zipa (chefe) assumia o poder. Coberto de pó de ouro da cabeça aos pés, o novo líder navegava até o centro do lago numa jangada carregada de oferendas, mergulhava nas águas frias e emergia “dourado” — o hombre dorado, o homem de ouro, que deu nome ao mito. Junto com ele, seus súditos lançavam à água peças de ouro e esmeraldas como oferenda aos deuses.

Para os muiscas, o valor do ouro não era medido em riqueza material, mas em significado espiritual — energia, luz, vida. Foi essa diferença de interpretação que, séculos depois, transformaria um ritual religioso num dos mitos de tesouro mais duradouros da história ocidental: a lenda de que existia, em algum lugar da América, uma cidade inteira feita de ouro.

Quatro séculos tentando drenar um lago

Quando a notícia do ritual chegou aos ouvidos espanhóis no século XVI, começou uma sequência de tentativas de drenagem que se estenderia por quase 400 anos. A primeira, em 1545, foi liderada por Lázaro Fonte e Hernán Pérez de Quesada: usando mão de obra indígena forçada, cavaram um canal e baixaram parcialmente o nível da água com represas rudimentares — o suficiente para recuperar centenas de pequenas peças de ouro e esmeraldas nas margens expostas, antes que o canal colapsasse sob a pressão hidrostática do lago e a água voltasse a subir.

A tentativa mais ambiciosa veio em 1580, quando o comerciante Antonio de Sepúlveda obteve uma licença real e mobilizou até 5.000 trabalhadores indígenas para escavar um canal ainda mais profundo, entalhando um corte na borda da cratera que baixou o nível da água em cerca de 20 metros. O esforço recuperou tunjos (figuras antropomórficas de ouro), esmeraldas e até um modelo cerimonial de jangada dourada — mas ainda muito aquém do que a lenda prometia, e a operação voltou a falhar quando as paredes do canal desabaram.

No século XIX, foi a vez de um empresário britânico, Hartley Knowles, tentar a sorte com bombas a vapor — tecnologia bem mais avançada que a dos espanhóis, mas com um problema imprevisto: o sedimento do fundo do lago secou sob o sol e endureceu como concreto, tornando impossível escavar mais fundo. Passados quatro séculos de tentativas, a maior parte do que os europeus imaginavam encontrar em Guatavita simplesmente nunca foi recuperada — e, hoje, autoridades colombianas protegem ativamente o que resta submerso, sem novas tentativas de escavação.

A prova que sobreviveu: a Jangada Muisca

A confirmação mais direta de que o ritual realmente aconteceu não veio do próprio lago, mas de um achado a dezenas de quilômetros dali. Em 1969, um agricultor encontrou em Pasca, ao sul de Bogotá, uma pequena peça de ouro conhecida hoje como Jangada Muisca (ou Balsa Muisca): uma miniatura detalhada da cerimônia, mostrando o zipa coberto de ouro sobre a jangada, cercado por seus acompanhantes. A peça, hoje uma das mais visitadas do Museu do Ouro em Bogotá, é considerada a prova arqueológica mais sólida de que os relatos coloniais sobre o ritual — inicialmente tratados como lenda exagerada — descreviam, na verdade, uma prática religiosa real dos muiscas.

Antes de subir até a cratera

Como chegar: o lago fica a cerca de duas horas de carro ou ônibus de Bogotá, próximo ao povoado de Guatavita Nueva — a “nova” cidade, reconstruída na década de 1960 em estilo colonial depois que o povoado original foi inundado para a construção da represa de Tominé.

Acesso ao lago: a área é administrada pela Corporación Autónoma Regional (CAR) como reserva florestal protegida; guias credenciados conduzem visitas guiadas obrigatórias pela trilha até o mirante do lago.

Duração da visita: a caminhada guiada costuma levar de duas a três horas, incluindo explicações sobre a história muisca e a paisagem de páramo andino ao redor.

Clima: temperaturas entre 7°C e 15°C durante o dia são comuns, com vento forte no mirante — leve roupas em camadas mesmo em dias ensolarados.

Combine com: o Museu do Ouro, em Bogotá, onde está exposta a Jangada Muisca original — um complemento quase obrigatório para entender o contexto arqueológico completo antes ou depois da visita ao lago.

Respeito ao patrimônio: é proibido remover qualquer objeto da área ou nadar no lago, que segue sendo tratado como patrimônio cultural e ecológico protegido pela Colômbia.

Para informações oficiais sobre visitas guiadas e o estado de conservação da reserva, consulte a página oficial de turismo da Colômbia sobre Guatavita.

Este texto integra o trabalho de Larissa Belmonte sobre lagos sul-americanos cuja importância histórica pesa tanto quanto — ou mais que — sua beleza natural.

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