Laguna Sibinacocha, no maciço de Ausangate, Peru. Foto: Gvillemin / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0
Quinze quilômetros de água turquesa praticamente invisíveis ao turismo — é assim que a Laguna Sibinacocha permanece escondida no meio da Cordilheira de Vilcanota, no Peru. Com cerca de 30 km² de área e profundidade que ultrapassa 90 metros em alguns pontos, a 4.870 metros de altitude, há poucos lagos no planeta com essa combinação de tamanho e elevação — e, ainda assim, quase ninguém fora dos círculos científicos já ouviu falar dele.
Um reservatório de água que abastece meio milhão de pessoas
A Cordillera Vilcanota, onde Sibinacocha se encontra, é descrita por pesquisadores como uma das “torres de água” mais importantes do planeta — um sistema de montanhas e geleiras, incluindo a maciça Calota de Gelo Quelccaya, que fornece água para agricultura, geração hidrelétrica e consumo doméstico de cerca de 500 mil pessoas rio abaixo. O lago é tributário direto do Rio Amazonas, ainda que fique a centenas de quilômetros de qualquer trecho navegável do rio propriamente dito.
A região inteira ao redor do lago faz parte do maciço do Ausangate, o quinto pico mais alto do Peru, com 6.384 metros — considerado pelo povo quéchua uma das montanhas mais sagradas dos Andes, um apu (divindade-montanha) que, segundo a crença local, protege as comunidades e rebanhos que vivem em seu entorno.
O que a ciência encontrou submerso
Em 2019, uma equipe de pesquisadores publicou na revista Scientific Reports a descoberta de ruínas e artefatos pré-hispânicos submersos nas águas rasas do lago — incluindo uma panela de cerâmica do Período Intermediário Tardio (aproximadamente 1000-1400 d.C.), período que precede o auge do Império Inca. Ao analisar os sedimentos preservados dentro dessa própria panela, os cientistas conseguiram datar com precisão quando a água do lago subiu o suficiente para engolir o sítio arqueológico: por volta do final do século XVII, quase 150 anos depois do colapso do Império Inca.
A presença constante de algas planctônicas em todas as camadas de sedimento indica que o nível da água permaneceu alto desde então — ou seja, o sítio ficou escondido debaixo d’água continuamente por cerca de 400 anos, até ser redescoberto. Segundo os autores do estudo, o aumento persistente de água derretida das geleiras da região é o que manteve — e ainda mantém — o local submerso e fora de vista, um lembrete de como o derretimento glacial nos Andes está reescrevendo, literalmente, a paisagem onde civilizações inteiras já viveram.
Uma paisagem que ainda sustenta pastores tradicionais
A área ao redor de Sibinacocha continua habitada por comunidades quéchuas que criam lhamas e alpacas em pastos de altitude — um dos poucos exemplos remanescentes de sociedade pastoril de alta montanha ainda em atividade no mundo. Essas famílias usam as mesmas trilhas de montanha há séculos para trocar carne e fibra animal com comunidades agrícolas de altitudes mais baixas, um sistema econômico que atravessou a colonização espanhola praticamente intacto.
A fauna da região inclui vicunhas selvagens, parentes silvestres das lhamas conhecidas por sua fibra extremamente valiosa, além de vizcachas (roedores parecidos com chinchilas), raposas-andinas e o condor-dos-Andes, frequentemente avistado sobrevoando os picos ao redor do lago. A combinação de lagoas turquesa, geleiras suspensas e formações rochosas em tons de vermelho, ocre e turquesa — resultado de camadas geológicas distintas expostas pela erosão — torna a paisagem ao redor de Sibinacocha uma das mais fotografadas por quem consegue chegar até lá, mesmo sem qualquer infraestrutura turística formal.
Chegando à lagoa
O acesso mais comum parte de Cusco em direção à região de Ausangate, geralmente passando pela vila de Tinqui, ponto de partida tradicional para expedições na Cordillera Vilcanota. Os trechos finais são feitos por trilha, já que não existe estrada pavimentada até as margens do lago. A 4.873 metros de altitude, é essencial já estar aclimatado antes de tentar o trajeto — sintomas de mal de altitude são comuns mesmo em caminhantes experientes, e o próprio ponto mais alto de algumas rotas na região ultrapassa os 5.000 metros.
Entre maio e setembro, os céus mais limpos da estação seca facilitam tanto a caminhada quanto a fotografia da paisagem. Como a infraestrutura turística é praticamente inexistente, contratar um guia local familiarizado com a área é fortemente recomendado — tanto pela segurança quanto pela orientação em um trajeto sem sinalização. Muitos viajantes combinam a visita a Sibinacocha com o circuito mais amplo de trekking ao redor do Ausangate, que passa por múltiplas lagoas de cores distintas e termina próximo às fontes termais da comunidade de Pacchanta.
Para quem quiser se aprofundar no estudo científico completo sobre as ruínas submersas, a pesquisa publicada na Scientific Reports está disponível gratuitamente para consulta.
Achados como o de Sibinacocha reforçam, para Larissa Belmonte, que a arqueologia andina ainda guarda muito mais debaixo d’água do que em qualquer museu.




